terça-feira, 28 de março de 2017

RESENHA DO CONTO "FELICIDADE CLANDESTINA", DE CLARICE LISPECTOR


O conto “Felicidade Clandestina” foi lançado em 1971, reunindo textos de Clarice Lispector escritos em várias fases da vida da autora, que foram publicados no “Jornal do Brasil”, entre os anos de 1967 a 1972. Aborda várias temáticas, desde lembranças de infância, família, sentimentos e abstrações diversas – afinal, é similar a uma avaliação psicológica a cada conto.
 
 

A escritora narra pela perspectiva das impressões mentais dos personagens, de forma que não há uma ordem, mas sim “pensamentos soltos” que vão se encaixando no conto. Essa “cadeia de pensamentos” nos leva ao que seria um tipo de “apogeu”, quando a personagem desperta, e percebe algo extremamente significante para ela com o acontecimento em si. E isso transforma de forma absoluta sua perspectiva de mundo.

No conto “Felicidade Clandestina”, a narrativa em primeira pessoa trata de uma mulher relatando um fato de sua infância. E como é possível perceber que é uma mulher, e não uma criança? Porque o estilo remete a alguém contando uma experiência vivida. Ela conta de uma menina com atributos físicos muito diferentes das demais, mas uma característica se destaca, e não é física: o pai dela é dono de uma livraria. Elas sempre esperavam no aniversário ganhar livros, mas a menina sempre presenteava com outras coisas. Ela tinha um sadismo que lhe conferia um certo ar de crueldade – talvez como forma de se defender da frustração de não estar nos padrões das meninas do seu convívio.

Quando a menina descobre que na livraria do pai dessa colega tem um livro que ela deseja muito – “As Reinações de Narizinho – Monteiro Lobato” – logo a colega se aproveita disso para submeter a menina ao julgo do seu sadismo: ela lhe faz a promessa de que emprestaria o livro, porém quando a menina chega em sua casa para buscar, sempre inventa uma desculpa, fazendo com que a menina retorne diariamente em busca do tão sonhado livro.

Percebe-se na menina certa “baixa estima”. Ela alimenta constantemente a esperança de que a colega vai emprestar o livro, mas no fundo sabe que isso lhe custará um grande esforço, como se julgasse não ser merecedora – a não ser que conquiste por meio do sofrimento.

Sua sorte infeliz muda quando, em mais um ida à casa da colega, a mãe dela surge no mesmo instante. Percebendo a presença diária da menina, resolve investigar a situação, e fica chocada quando toma conhecimento da situação, e muito mais com a maldade da filha. Como forma de correção e justiça, entrega o livro à menina, e diz que ela pode dispor do livro o tempo que precisasse.

A felicidade da menina é tão grande, que ela o leva bem apertado no peito. Sem de imediato ler, absorve a presença do livro, e o lê bem devagar. Gosta de desacreditar que o tão almejado livro finalmente está em sua posse, só para se surpreender. Como se a qualquer momento ele não mais existisse, aproveita todas as formas de gozo dessa felicidade, como se não a merecesse, como se fosse “clandestina”.

Isso se comprova com o desfecho dado ao conto: “Era uma menina com seu amante”. Geralmente uma amante é uma pessoa que mantem relação com alguém comprometido. É uma pessoa clandestina na relação, tendo em vista que goza do afeto da/do outra/o às escondidas.

Aplicando essa descrição à menina, ela tinha em mãos um livro emprestado. Estava com ela pelo tempo que quisesse, mas o livro não era seu. Ela age como se o livro fosse seu, ela “faz de conta”, por isso o termo “felicidade clandestina”, ou seja, goza de uma felicidade de algo que não possui, mas que irá aproveitar todo o instante que puder para vivê-la.

O conto enfatiza os sentimentos da personagem em face da inexistência de nomes de personagens, poucos lugares e poucos personagens. Isso permite ao leitor mergulhar na mente da mesma, se permitindo comover, vislumbrar e até se emocionar. Isso é muito “clarice”: deixar os sentimentos serem os principais protagonistas de seus contos.
 
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Esta postagem faz parte do Projeto Clarice-se de março
 
 
 
 
 
 
 

sexta-feira, 10 de março de 2017

TAG SÉRIES: IMPRESSÕES SOBRE A SÉRIE “BLACK MIRROR”



O sucesso da série “Black Mirror” está justamente na capacidade de nos atordoar, de forma que a angústia seja o principal peso em nossa consciência. E por quê? Porque mostra como somos dependentes da tecnologia (interface digital), revelando nosso lado predatório e misantropo – e como isso está a determinar a vida em sociedade. É viral, é mundial, e assustador.

A ficção que cada episódio apresenta revela indiretamente que alguns traços já vivemos e sentimos. Os avanços tecnológicos serão a próxima “seleção natural”, onde sobrevive quem se adapta, quem é aceito, a popularidade (boa e ruim) nas redes sociais, e quem pode permanecer vivo (!!).

 Cada episódio tem um elenco diferente, um cenário diferente e até uma realidade diferente, mas todos eles são sobre a forma como vivemos hoje - e a forma como nós poderemos estar vivendo em 10 minutos se não tomarmos cuidado.” – palavras de Charlie Brooker, criador da série.

Originalmente a série foi transmitida pelo Channel 4 entre os anos de 2011 e 2014. A primeira temporada foi em 2011, com 3 episódios. A segunda foi em 2013, com 3 episódios também. Em 2014 foi exibido um episódio especial de Natal. A última temporada foi a mais longa, em 2016 – 6 episódios. Os episódios são todos independentes, então é possível assistir em ordem aleatória (apesar de ser possível perceber que alguns episódios apresentam sutis informações de outros episódios). A única característica presente em todos os episódios é que eles mostram histórias distópicas, mas que tratam dos problemas que vivemos atualmente.

Ninguém se salva. Não há finais felizes. Ninguém consegue mudar seu destino. Todos podem ser o alvo. Todos são observados. As redes sociais e a tecnologia determinam os padrões, e para isso valem-se do terrorismo e da violência física e mental.

Seria a série uma premonição do que está por vir? Podemos ver nos fóruns de discussão e fanpages como as pessoas estão extremamente preocupadas com que a série apresenta.

 
BLACK MIRROR – EPISÓDIOS

 
1ª Temporada (2011)

 
1 – O Hino Nacional (The National Anthem)
 
 

Percebe-se nesse episódio como o terrorismo pode ditar as regras, e – principalmente – fazer com que uma grande personalidade se submeta a uma situação degradante, mesmo que isso custe o repúdio da família, da sociedade e a perda de sua dignidade.
 

2 – Quinze Milhões de Méritos (Fifteen Millions Merits)
 
 
 

Aqui é exibido um tipo de segregação por tipos de grupos. Quando mais pedalam, gerando energia, mais acumulam pontos (tipo de salário?), que podem ser trocados por “brindes”. Só é possível “subir na escala social” por meio da participação em um “Show de Calouros” – que muito se parecem com os programas exibidos na TV aberta.

 
3 – Toda a sua História (The Entire History of You)
 
 

Os celulares foram substituídos por um mecanismo implantado no corpo (Gran), que registra tudo o que acontece com a pessoa, e tanto pode ser visto individualmente – como se a pessoa estivesse em hipnose – ou em telas, para serem exibidas às outras pessoas. Especificamente neste episódio o foco é um casal – o marido que, movido pelo ciúme, procura desesperadamente indícios de traição de sua esposa.
 

2ª Temporada (2013)


1 – Volto Já (Be Right Back)
 
 

À princípio algo que poderia ajudar no processo de superação do luto, acaba por trazer mais transtornos emocionais.

 
2 – Urso Branco (White Bear)
 
 

Crimes que se tornam um espetáculo bizarro que entretém as pessoas, ávidas pela “Lei do Talião”. Já imaginou uma penitenciária se tornar uma espécie de “Parque Urso Branco”?

 
3 – Momento Waldo (The Waldo Moment)


 

O episódio mais próximo da realidade política mundial. A sociedade, frustrada pela corrupção dos governantes, encontra em um personagem (Waldo) escrachado uma forma de encarar isso de forma irreverente, por meio da ofensa, do dano moral, da exposição deprimente feita por memes e montagens.
 

ESPECIAL (2014)

Natal Branco (White Christimas)


 

A insegurança como escopo para um negócio: prestação de serviço para assinantes terem êxito nas convenções sociais – é disso que vive Matt, o personagem. Em uma situação, o êxito se torna tragédia.

Em outra cena, vemos Matt trabalhando em uma indústria que elabora um programa que decifra a personalidade das pessoas, reunindo tudo em uma espécie de pen drive – Cookie – que reúne todas as informações da referida pessoa.

Outro personagem – Potter – surge, e em sua história pessoal, acompanhamos sua tragédia por ter sido abandonado pela namorada, e sua busca por respostas que nunca lhe foram dadas. E mais uma vez o choque da realidade fere profundamente quando a verdade é descoberta.

Esses personagens se encontram. E o desfecho é “matador”.

 
3ª Temporada (2016)

1 – Queda Livre (Nosedive)

 


A necessidade que há por detrás da popularidade em redes sociais, retratada no episódio como um fator de valorização até para a aquisição de imóveis. Você é o que consegue de “likes”. E pode ser prejudicado só com “deslike”.

2 – Versão de Testes (Playtests)

 
 

Óbvio: crítica às empresas que fabricam games e sua total falta de preocupação em como a tecnologia pode causar danos irreversíveis e morte às pessoas – e como as mesmas pessoas preferem a imersão em jogos de realidade simulada em detrimento às relações – em especial, as familiares.

A interferência da mãe o condenou ou o salvou? Fico a me questionar.

3 – Manda Quem Pode (Shut Up and Dance)

 


Mais uma vez “ninguém está a salvo”. A tecnologia nos permitiu extravasar, e isso reforçou um lado escuro de nossa mente para a autodestruição. Pessoas se expõem para satisfazerem seus fetiches, mas incorrem no perigo dessa exposição vir ao conhecimento da sociedade. Todos sabem disso, mas é preciso ocultar.

E para se ocultar, pode-se pagar um alto preço.

No episódio, três pessoas: um jovem, um homem, e um homem velho (liga tríplice da degradação? Rsrs)

Em uma das cenas, o drone que assiste a briga me remeteu ao episódio “Urso Branco” – o quanto somos ávidos pela destruição dos outros.

“Deseja a destruição dos pervertidos, mas manda nudes a desconhecidos”?

4 – San Junipero

 
 

A predileção pelo mundo virtual em degradação da realidade. Portanto, por mais que se leve a acreditar de que é um “final feliz”, NÃO É”.

E eu nem consigo escrever mais porque seria uma chuva de spoilers!

5 – Engenharia Reversa (Me Against Fire)

 
 

O episódio trata de um tema que atravessa os milênios – sempre houve, e sempre haverá – que é “ódio racial”. A tecnologia à serviço das nações que, por meio de um exército, quer acabar com seus adversários.

6 – Odiados pela Nação (Hated of the Nation)

 


Como o discurso de ódio pelas redes sociais determinam o destino de “odiados e odiadores”. Desde o famosos aos desconhecidos. E nem o Estado escapa disso – pois não tem absoluto controle – nem suspendendo as redes sociais no território.

Não tem final feliz também. Mas deixa uma mensagem significativa: nem tudo está perdido.

Nem que seja para “uma pessoa”.

 
CONCLUSÃO PESSOAL

Black Mirror aparentemente pode tratar de histórias distópicas, mas aborda temas atuais, mas de forma sutil – afinal a verdade está “lá fora”, mas peferimos a segurança de um software, ou de uma rede social. É a verdade do mundo vista por um espelho negro que, apesar de negro, deixa nítido a hipocrisia humana, ou seja, um espelho que revela vícios e defeitos.

Depois desse post seria ótimo passar uns dias em San Junipero, mas vai que eu não queira voltar mais.

quinta-feira, 9 de março de 2017

RESENHA DO LIVRO “RAINHA SARAH - UM”, DA ESCRITORA ÉRICA ARAÚJO E CASTRO


A literatura erótica tem ganhado os “holofotes editoriais” de maneira especial graças aos sucessos da série “Crossfire”, de Sylvia Day, e da trilogia “50 Tons de Cinza”, de E.L. James. A temática BDSM tem aparecido constantemente nas “Erotic Novels”. Entretanto, na maioria dos livros é exposta de maneira deturpada. Os personagens geralmente são sempre pessoas que passaram por abusos na juventude, justificando sua perversão sexual.

É necessário o esclarecimento de que as pessoas que pertencem ao Universo BDSM estão muito longe de possuírem as características de transtorno dos personagens. Não encontram no BDSM uma válvula de escape para as suas frustrações e traumas. O BDSM é uma subcultura devidamente constituída de liturgias, protocolos e regras muito bem estruturadas, onde os/as adeptos/as interagem de forma consensual e saudável.

Érica reside em Conselheiro Lafaiete/MG. É graduada em Letras, e atua como professora de inglês. É cronista, colunista e escritora. Além do erótico, escreve sobre outros temas como horror e investigação.

Em seu livro “Rainha Sarah - Um” encontramos um elenco de personagens fortes e intensos. Uma Dominadora Sádica que exerce seu domínio com maestria e excelência, e um submisso que sabe se portar, e que faz por merecer o adestramento que ela lhe confere.
 
 

Suas vivências no BDSM são expostas em uma trama envolvente. Rainha Sarah em suas andanças em salas de bate papo busca por um submisso “digno de ser adestrado por ela, e assim pertencer ao seu canil”, sem muito resultado. Até que um dia, “sub_sp” inicia uma conversa, claro, de uma maneira realmente adequada a se dirigir para uma Rainha, e isso chama a sua atenção de forma peculiar.

__ Desculpe-me por incomodar, Rainha. Mas se a Senhora quiser teclar comigo, estou ao seu dispor.

Reparem como a sua maneira denota respeito, e de acordo com os protocolos BDSM. Realmente mereceu a atenção da Dominadora. Inicia-se assim a conversa que logo mais resultaria em um relacionamento D/s.

“Um” – como é chamado o personagem em todo o livro – conhece Aquela que veio a ser sua Domme, Mentora e Senhora. O livro nos leva a viajar na trajetória de seu adestramento como submisso Dela. São cenas extremamente descritivas de como são as sessões BDSM. O prazer da dor e da humilhação, que os “baunilhas” abominam, mas que os/as adeptos/as amam e conduzem com rigor e segurança, fazem o leitor viajar em um mundo onde não há limites ou amarras que impeçam o apogeu dessa forma de fetiche.

Mas é uma viagem forte. Chocante. Envolvente. Quem não conhece o BDSM à principio terá uma dificuldade imensa de virar para a próxima página. Mas a vontade de saber como vai terminar essa viagem com certeza será maior que o seu medo – e o medo, convenhamos, é um prazer deveras apreciado.

E Érica recompensa os leitores corajosos não somente com um romance erótico/pornográfico, mas com muita informação sobre o Universo BDSM. Mas não é somente informações expostas de forma técnica: ela aborda a temática psicológica também. Usa termos de filosofia, literatura, e história. Seus questionamentos vão cutucar aquela porta fechada de sua mente que você sempre temeu abrir (será por isso que a capa do livro é a fechadura de uma porta pesada de madeira? Rsrs).

Cada capítulo percorrido levará ao ápice da relação de Um e Rainha Sarah. O estudante de curso acadêmico se empenha em seguir até o fim para celebrar seu diploma na festa de formatura. Mas e o submisso? Como se confirma o êxito de seu adestramento? Como conquista seu reconhecimento no meio BDSM? Como uma Dominadora oficializa sua relação com o seu submisso? Há liturgias? Cerimônias?

Posso dizer que no livro há. Mas se é oficializando o Um como “o cão” de Rainha Sarah, você – sim, VOCÊ – terá de descobrir.

Porque eu tive coragem e “abri a porta”.

Uma porta que nunca mais será fechada.

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Link de sua página no Facebook é:
 
O livro não é vendido em livrarias. Aquisição somente com ela.
 
 
Érica Araújo e Castro - a "Rainha Sarah"
Curve-se! <3
 

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

RESENHA DO CONTO "FELIZ ANIVERSÁRIO", DE CLARICE LISPECTOR


O conto de fevereiro “Feliz Aniversário” – o quinto conto do livro “Laços de Família”, da enigmática Clarice Lispector, trata de uma reunião familiar para comemorar o aniversário de 89 anos de Dona Anita, a idosa da família. A narrativa parte do ponto de vista dela, que observa o comportamento de todos os presentes, e apresenta a hipocrisia que existe nos laços de família, e a questão delicada dos parentes idosos das famílias: a obrigação que se sobrepõe ao afeto (sentimento de abandono pela falta de correspondência de carinho e proteção), e de como isso interfere no individualismo de todos.
 
 

O “transtorno metal” ao que Clarice nos leva já começa pelo título: “Feliz Aniversário”. Ela se vale de um sarcasmo indireto, pois as pessoas onde acontece a festa não estão confortáveis em estarem lá. A motivação maior de todos é a convenção social que a data impõe.

Dona Anita mora com a filha Zilda. Ela é quem prepara a festa, arcando inclusive com todas as despesas, e não o faz por prazer, mas sim por obrigação. Sua revolta se mostra em muitas passagens do conto. A imposição deste “dever familiar” não é apenas dela – todos estão comungando da mesma angústia da obrigação. Lembremos da “nora de Olaria”, que saúda a todos com a cara fechada. “Vim para não deixar de vir...”

O conto por alguns momentos divide-se entre o ponto de vista de Dona Anita, e dos demais personagens. O que deveria ser uma confraternização, é muito mais uma convenção: mulheres que reparam na aparência umas das outras; o irmão que quer aproveitar o momento para tratar de negócios; o filho que quer se mostrar melhor do que o falecido irmão, e as crianças – os seres mais puros do conto, por agirem de maneira natural. De um lado a exposição das atitudes negativas da família, e do outro a decepção de Dona Anita que constata – em profundo silêncio – como patética toda aquela encenação de estima e afeto. E despreza de maneira absoluta.

Dona Anita “quebra” o ambiente, já farta de tamanha hipocrisia, no momento em que cospe no chão. Mesmo com as advertências da filha Zilda, sua ação mostra o rompimento com aquela farsa arquitetada pela filha, e por todos os presentes. Soma-se a essa atitudes outras mais (Dona Anita pede vinho; repreende a neta que a chama de vovozinha), e tamanha polêmica que causa faz com que a falsidade de todos fique exposta, causando um verdadeiro desconforto.

Mais uma vez Clarice coloca uma mulher como protagonista, que sai de sua zona do conforto (ou seria desconforto?) para promover uma ruptura, uma revolução sobre uma situação já insustentável. A cusparada de Dona Anita aniquila a burocracia das atitudes hipócritas dos filhos.

A festa do conto é somente uma fachada. Uma descrição dos laços de família que se processam na base dos interesses e da convenção, tornando-os fragilizados e tristes.
 
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Esta postagem participa do Projeto Clarice-se 2017 - Resenha do mês de Fevereiro

 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

VÍCIOS SENSORIAIS

Existe um tipo de escravidão que tem como principal característica tornar a criatura viciada em sensações geradas pelas paixões que a mesma cultiva.
 
Cada pessoa responde de um modo particular ao estímulo lançado. Graças à ilusão do Ego, a pessoa que lança o estímulo se deixa cegar pelo domínio, e a pessoa que o recebe se deixa cegar pela submissão.
 
Ambas estão sob o julgo da expectativa. Ambos os egos se inflam com a vertigem criada, com o caleidoscópio de sensações.
 
Porém, quando elas param de corresponder às vontades umas das outras, surge a frustração. E movidos pelo egoísmo, acontece o abandono.
 
É quando a abstinência faz com que se procure uma nova criatura que possa proporcionar a mesma paixão.
 
Feliz é quem consegue romper o ciclo vicioso dessa escravidão, e toma posse de si. Que com a outra pessoa estabelece um equilíbrio que complementa, e torna a vivência de ambos sublimes de significados.
 
Pois quando a pessoa não está completa de si, permite justamente que seu vazio seja preenchido pelo parasitismo astral dos outros.


O convite para a reflexão é esse: rompa as correntes do vício sensorial, a escravidão invisível induzida por nós mesmos.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

TAG – BDSM: DECIFRANDO O CÓDIGO: #1 – O Evangelho da Submissa

Existe um universo constituído de pessoas que vivem um estilo de vida visto pela sociedade como excêntrico, perigoso e muitas vezes psicótico. Mas na verdade essas pessoas o consideram assim porque acham que em sua ignorante comodidade estarão protegidos dos/as adeptos/as, e muitas inconscientemente se protegem de descobrir que, em verdade, sentem vontade de pertencer ao mesmo.
Esse universo ao qual me refiro é o BDSM.
Aos que tem apenas uma visão limitada pelo preconceito difundido pela sociedade, ou aos que tomaram conhecimento por meio da trilogia “50 Tons de Cinza”, eis uma pequena introdução geral ao BDSM.
BDSM é uma sigla – junção das palavras em inglês Bondage (“bandagem”), Discipline (disciplina), Sadism (sadismo) and Masochism (masoquismo). O objetivo deste universo é que seus/suas adeptos/as obtenham prazer por meio da troca consensual de poder entre alguém de perfil dominante e alguém de perfil submisso. Existem diversas práticas dentro do BDSM. Contudo, seu fundamento está no SSC (são, seguro e consensual).
Essa TAG que criei tem por objetivo trazer esclarecimentos concisos sobre este universo por meio de entrevistas com adeptos/as. A teoria é acessível, mas a prática e a realidade do BDSM é ainda um mistério. E a TAG se “serve” de “portal” para que quem a lê, o decifre, e quem sabe, se descubra.
 
Tenho a grande satisfação de receber Ana*, uma submissa que não se classifica como uma coisa só, mas sim como uma junção de várias (babygirl, brat, bottom, kitty),para responder a primeira parte de minha TAG.





1) Obrigada por sua disposição em responder a essa TAG. Minha primeira pergunta: como você define “Submissão”?

Eu defino como uma necessidade. Não é só um jogo, está mais para um estilo de vida. A submissão está muito presente na personalidade da pessoa que o é, mesmo fora das sessões e do mundo. É toda uma ideologia que precisa ser trabalhada diariamente na vida do/da submisso(a). É uma escolha desenvolvida mental e fisicamente e a qual, quando não aceitamos, nos oprime e nos faz sentir prisioneiros de nós mesmos. Não é praticada no dia a dia, não sempre, mas é vivido internamente a todo momento.

2) Por que a escolha de ser Submissa? Essa escolha é livre?

Eu escolhi ser submissa quando, depois de muita análise pessoal, percebi que algo faltava. Algo não se encaixava. E não era só no sexo: era na vida em geral. Eu tinha uma pedra no meu sapato que não conseguia identificar. Quando eu tentei explicar meu comportamento para alguém, quando ainda era bem jovem, e me disseram que eu seria uma "ótima submissa”. Decidi pesquisar sobre. Logo após me iniciei em algumas práticas mais leves e toda minha perspectiva de vida mudou. Eu me sentia livre das minhas próprias amarras. Principalmente sendo amarrada por outro alguém! *risos*

3) O acordo entre Dominador e Submissa estabelece separar prática de afetividade, ou é possível uma “brecha” para que esse acordo possa se tornar um relacionamento afetivo?
Penso que um relacionamento afetivo só nasce de uma relação D/s pelo “feeling”. Às vezes os dois (ou mais) acordam entre si que não haverá possibilidade de qualquer tipo de relacionamento afetivo e isso, com o tempo, acaba acontecendo fora do controle das partes. A conexão muda, aumenta, se transforma. Também em vezes que ambas as partes tentam algo por acreditar que pode dar certo, e simplesmente não dá. A química existe durante as sessões; mas fora dela as diferenças se mostram grandes demais. Acho válido que aja um diálogo muito aberto e sincero logo na etapa do conhecimento e pré acordo como as partes envolvidas se sentem sobre um relacionamento efetivo. Mas acho que ditar essa regra de proibição no contrato é querer controlar algo que não se controla. Os sentimentos são extremamente mutáveis. Contrato nenhum os detém.

4) Caso aconteça do acordo se tornar um relacionamento afetivo, é necessário que seja aberto ou monogâmico?
Ser aberto ou monogâmico também é questão de “feeling”. Questão de personalidade. Pessoas que tem uma ideia diferente sobre posse, sobre ciúmes, sobre liberdade. Eu não privaria meu/minha parceira à um relacionamento monogâmico se ele/ela não quisesse isso. Se eu tenho afeto/amor por essa pessoa quero que ela seja feliz; se possível, comigo. Mas não precisa ser só comigo. Anos atrás eu era bem ciumenta, mas hoje em dia a vida já me ensinou que as coisas são diferentes. Como dentro dessa relação a possessão é uma coisa bem forte, ao meu ver a relação toda gira em torno de como o Top/Dom tem seu/sua sub e vice-versa. Creio que isso deva ser conversado e respeitado. Esse limite é tão severo quanto os limites dentro da sessão. A forma como a pessoa pode ser machucada, se esse limite for desrespeitado não se cura no “aftercare”.

5) Esse acordo é por tempo indeterminado, determinado, ou parte de algum dos envolvidos seu fim?

Acredito que o tempo de contrato vai de acordo com a necessidade de ambas as partes. Eu gosto de algo mais duradouro, que seja trabalhado. Se eu tenho um/uma Dono(a), eu me dedico somente a ele/ela por meses, quanto tempo for necessário. Acredito em sessões constantes e também em um relacionamento saudável no dia a dia, fora das sessões. Acredito piamente no afeto dentro da relação, sem torná-la um relacionamento afetivo, e sim um cuidado, um prezar pelo que você dá e recebe. Não vejo problemas em firmar um contrato de meses, com a condição de que no contrato aja uma especificação muito clara que o mesmo poderá ser rompido se qualquer limite não for respeitado. Mesmo algo que seja novo e tenha sido descoberto naquele momento.

6) Como é a submissão? O/a submisso/a precisa servir 24 horas por dia, ou somente quando há sessões?
Isso vai de como a personalidade do(a) dom/domme influencia o/a sub. Existe Dom que gosta dessa submissão 24/24, não saem do "papel", nem mesmo por whatsapp. Tem Dom que prefere deixar isso reservado para os momentos a sós, durante as sessões, porque gosta de se afirmar olho no olho, pele na pele. Qualquer um dos dois modos é gostoso, a meu ver: gosto de ser sempre alertada que pertenço a alguém. Que pertenço por escolha e adoro isso. Acho que a forma como decidimos servir vai da nossa própria necessidade de demonstrar nossa submissão, e do tato sobre a necessidade que o Dom ter de ser lembrado de sua dominância.

7) As pessoas do seu convívio, ou familiares sabem de sua apreciação pelo BDSM?
Alguns familiares sabem. Meus pais e irmão não. Eles me veriam como uma aberração. O preconceito e a falta de informação são tristes. Parece que eu me torno outro ser humano por esse meu lado, e isso não é verdade. Eu sou uma sub, uma bottom, uma brat, babygirl e gatinha (eu sou todas essas coisas, não me encaixo em uma só), mas eu ainda sou uma profissional dedicada, uma amiga fiel, uma estudante das mais "cdf's", uma professora moderna. Ser adepta do mundo não faz de mim menos “Ana” do que eu sou. A maioria dos meus amigos sabe, e eu não faço questão de esconder se considero que o conhecimento disso possa me prejudicar de alguma forma. Sou extremamente aberta em todos os quesitos da minha vida. Sou sobre isso, também.

8) ‘’Fakes’’ servem para que os/as adeptos/as se protejam de perseguições pelas redes sociais?
Acredito que os "fakes" são medidas de segurança, sim. Família, amigos, trabalho, em qualquer lugar as pessoas podem não atender, e fazer um julgamento errado. O preconceito pode prejudicar de forma irremediável a vida desse/a adepto(a). Não acredito que sejam pessoas de má intenção: as de má intenção demonstram isso por trás de fotos de si mesmo ou não. A noção de segurança de cada um deve ser respeitada.

9) Como você vê a cena BDSM no Brasil? Ainda falta muito para que a sociedade perca seu preconceito?
Ah, falta bastante, sim. Já ouvi comentários péssimos.

v  "Você gosta de apanhar? Então eu posso te dar um tapa agora que você vai ficar com tesão?"
v  "Você gosta de ser humilhada? Como pode dizer que é feminista?"
v  "Você não pode reclamar de tal pessoa ter te machucado, você gosta disso, deixa de ser hipócrita"
v  "Você deve ser uma vagabunda na cama. Qualquer dia te pego na raiva e te fodo, te esmurrando pra desestressar"
v  "Espero que algum dia te espanquem quase até a morte pra parar com essas frescuras"
v  "Eu não quero você como professora do meu filho se você gosta de agressão, vai o ensinar a agredir os outros?".

Vai daí pra bem pior. As pessoas não conseguem separar as coisas. Consideram-me uma maníaca por sexo, agressiva, maluca. Acho que todo mundo já passou por isso pelo menos uma vez. Qualquer tabu tem essas reações, mas o BDSM tem essa reação extremamente negativa. Não consigo imaginar como essa situação possa mudar, mas tenho fé nessa utopia.

10) Você vive o BDSM atualmente ou está afastada? Caso esteja afastada, ao que se deveu o afastamento?
Eu não tenho um Dono ou Dona no momento. O trabalho, o último ano na faculdade e meus projetos sociais em pleno funcionamento tem podado qualquer tempo que eu tenha para me dedicar. Tenho esse desejo, sim, de voltar à ativa. Mas estou me descobrindo mais no mundo, e não consigo me encaixar mais em uma coisa só, e algumas pessoas não sabem lidar comigo, com meu gênio difícil e minhas provocações por castigos, etc. Minha falta de tempo é ultrajante, na maioria das vezes. Tenho muita dedicação para oferecer, mas meu ritmo de vida tem me prejudicado bastante. No momento estou mais inserida que nunca no mundo, só que nos estudos. Venho estudando muito ultimamente. Conversando com muitas pessoas, sobre as mais diversas práticas. A curiosidade por práticas que nunca tentei vem sendo aguçada, a vontade de me aprofundar mais nas práticas que já conheço vem crescendo. Mas eu entendo as necessidades de Um/Uma Dominante. A busca ainda existe, mas está adormecida no momento.

Estou esperando que logo seja acordada.
OBSERVAÇÃO
No texto, o uso de “Dom” procura englobar toda a parte dominante da relação: Dom/Domme, Top, Tamer, Daddy/Mommy e etc. Assim como “sub” procura englobar toda a parte submissa da relação: submisso(a)/escravo (a)/bottom/brat/babygirl/little e etc. O questionário é sobre uma relação D/s e se encaixam os diversos gêneros dentro da mesma. Não é porque a palavra não está aqui inclusa que ela deixa de existir no sentido do texto.
 
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Se estavam esperando um glossário de termos, esqueçam!

Ousem descobrir.
Foco, força, fé e fodam-se (de preferência “com força”)

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

O TIGRE DE BLAKE – UMA TRANSMUTAÇÃO


O texto se destina a mostrar através das palavras uma projeção mental que tive a partir do poema de William Blake: um de meus poetas favoritos.

O Tigre é um animal imponente, dominador e impassível. Seu andar é firme e objetivo, e que abençoadas as pessoas que o tem como animal de poder! O que se passava na mente do Ser criador do Universo ao conceber este animal tão poderoso?
“Tigre, tigre que flamejas
Nas florestas da noite.
Que mão que olho imortal
Se atreveu a plasmar tua terrível simetria?”
 
O Tigre deve ser uma espécie de animal que resultou no que veio a se tornar a Teoria de Darwin, a partir dos pensamentos do Ser que tratavam de domínio, superação, adaptação, liderança e até uma sutil sensualidade. Se os olhos tocam o poema de Blake, a pessoa precisa obrigatoriamente transmutá-lo em sua alma. O Tigre anda em sua direção, e ela precisa abrir as portas de sua percepção e se adequar a merecer a atenção de sua majestade.

Em que longínquo abismo, em que remotos céus
Ardeu o fogo de teus olhos?
Sobre que asas se atreveu a ascender?
Que mão teve a ousadia de capturá-lo?
Que espada, que astúcia foi capaz de urdir
As fibras do teu coração?
 
O Tigre entrou na mente, e as batidas de seu coração ensurdecem os ouvidos. Seus temores estão tão profundos em sua consciência, que para ele o medo inexiste. Portanto, ele chuta com maestria os medos da mente por onde caminha. Ele a faz correr para fora da zona de conforto em que a pessoa abrigou com obrigação.

 E quando teu coração começou a bater,
Que mão, que espantosos pés
Puderam arrancar-te da profunda caverna,
Para trazer-te aqui?
Que martelo te forjou? Que cadeia?
Que bigorna te bateu? Que poderosa mordaça
Pôde conter teus pavorosos terrores?

O Ser que criou o Tigre criou você. Pertencem ao Universo. Tem a obrigação de conquistar seu espaço neste mundo. O Tigre é o orgulho da criação. E você DEVE ser também. O Tigre e o Ser são um. Você é um com o Ser: só precisa constatar isso.
 
Quando os astros lançaram os seus dardos,
E regaram de lágrimas os céus,
Sorriu Ele ao ver sua criação?
Quem deu vida ao cordeiro também te criou?
 

Transmute-se. AGORA! Eis o seu mantra: faça destes versos sua oração quando sentir que não está um com o Ser e o Tigre. Vocês são um
 
Tigre, tigre, que flamejas
Nas florestas da noite.
Que mão, que olho imortal
Se atreveu a plasmar tua terrível simetria?


 ***TRANSMUTAÇÃO: Ação ou efeito de transmutar; ato de se transmutar; modificação.
 
 
 
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Esta postagem faz parte do ''Desafio Imagem/Palavra' do grupo ''Café com Blog''