segunda-feira, 3 de outubro de 2016

O BULLYING, E A “FORÇA OCULTA”

Eu sofri com bullying antes mesmo do assunto alcançar a repercussão que tem atualmente.

No chamado "prézinho", a criança que gostava de ficar sozinha era ridicularizada pelas crianças, e jogada em um quarto escuro pela professora - que não aceitava meu problema de socialização com outras crianças.

No ensino fundamental (1ª a 4ª série) meu isolamento constante também era motivo de insultos entre as crianças. Mas isso me tornou uma criança violenta (eu literalmente "sentava a mão" em quem puxasse minha saia ou cuspisse em mim).

Na 5ª até a 8ª série: constantemente ameaçada pelo grupo de garotas "valentonas e desejadas". Muitas vezes minha mãe teve de ir à escola me buscar para que eu não apanhasse. E por que deixe de ser a menina violenta? Porque queria que "os rapazes" me notassem. Sem sucesso: ninguém olhava para mim.

Encontrei nos livros a fuga para meus problemas. Literatura, poesia e filosofia preenchiam perfeitamente o espaço que poderia ser preenchido com drogas ilícitas e bebida alcoólica. Se isso foi bom ou ruim, não sei. Mas também não tenho a menor curiosidade em saber.

Do 1º ao 3º colegial? Fiz do meu conhecimento uma estratégia: fazia pequenos favores para "colegas influentes" em troca de proteção (reforço para prova, fazia lição de casa dos outros, etc). Ou era isso, ou continuar a sofrer com perseguições.

Hoje, quando vejo notícias de adolescentes que se suicidaram por causa do bullying, eu fico a refletir: o que me manteve viva diante do bullying que sofri por tantos anos?

Sou filha de pais problemáticos. Minha mãe me defendia contra as valentonas por me achar vulnerável e fraca. Meu pai? Alcoólatra durante a minha infância e adolescência - total ausente. Professores e diretores de escola? Nada - absolutamente nada - fizeram para me ajudar. E para piorar: diagnóstico de depressão desde os quatro anos de idade, mas meus pais não tinham condições financeiras para custear um tratamento.

Repito: o que me manteve viva diante do bullying que sofri por tantos anos?

Eu acho que antigamente o que fortalecia pessoas como eu a enfrentarem o "bullying" era a obrigação de se manterem vivas. Algo que acredito ser muito reforçado pela religião, pela severidade dos pais, da família e da sociedade. A gente até enxergava o suicídio como opção, mas nunca éramos bem sucedidos nas tentativas. Pelo menos eu não consegui cortar meu pulso direito o suficiente para causar uma hemorragia - só restando uma cicatriz. O vidrinho de bolinhas "Homeopatia Almeida Prado" que tinham um gosto doce de bala de boteco da penteadeira de minha avó materna só causou uma dor de barriga de 3 dias. Ficar o dia inteiro na Ponte do Piqueri tentando me jogar não deu certo - por isso acabei voltando para casa.

Acho que na verdade eu não tive inteligência o suficiente para ser uma suicida bem sucedida. É um dos motivos que me faz enxergar o suicida como um herói - e não um covarde.

O suicida me ajuda a entender a dor que sofri - porque eu entendo a sua dor. Mas por alguma razão, a vida me proporcionou uma chance de estar viva para dizer a quem sofre de bullying: a força existe dentro de nós. O que consideramos covardia, vulnerabilidade, fraqueza e incapacidade em nós encobre essa força. Mas ela existe. E o dia em que você - vocês - que sofre/sofrem de bullying descobrirem isso, vão superar com vitória todo esse sofrimento. O suicídio é uma opção que não permite volta. Mas se esforçar para descobrir essa força oculta nos permite opção. Ou opções. Só custa muito descobrir, mas com esforço se consegue.

No meu caso, eu só enxergava como opção a sobrevivência.

Será que foi isso que me manteve viva? Não sei. Tudo o que sei é que estou viva para contar. Isso me torna uma heroína? Não acho nem um pouco. Nem de longe. Mas tenho comigo que me torna capaz de ajudar quem precisa descobrir sua força oculta – porque eu senti muito a falta de alguém que realmente pudesse me ajudar.

Por isso ajudo sempre que posso. Quando não, eu leio sobre o assunto. Estudo. E faço uma oração para todas as pessoas que sofrem com isso – principalmente os jovens. Oro para que minha filha (caso sofra) seja forte o suficiente para enfrentar – e para que eu seja seu apoio.

E é isso que desejo a todas as pessoas que sofrem com bullying: que a força oculta dentro de vocês desperte. Fase ruim só dura para sempre quando se permite.

Foco, força, fé e foda-se!
 
 

7 comentários:

  1. Texto forte, pesado, incrivelmente bonito. Eu sinto muito pelo que você passou, e admiro muito a maneira com a qual você lidou com tudo isso. Você é um ser humano incrível e espero que saiba disso, sua fuga nos livros te tornou uma escritora magnífica!

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  2. Eu já sofri muita pirraça na escola por ser baixinha, miúda, e muito nova pra turma. Eu tinha 2 anos a menos que a maioria dos colegas. Não sei se seria bullying, acredito que não. Não cheguei a apanhar, sempre recebia xingamentos e apelidos ofensivos. Acho que o que me levou a não me deixar afetar por isso foi o fato de eu não me importar com a opinião dos outros. Não tava nem aí pra ninguém, apesar de os apelidos me irritarem.
    Então não faço a mínima ideia do que vc passou. Mas fico feliz, de verdade, que vc tenha superado e se mantido viva. Infelizmente nem todo mundo tem essa força dentro de si.

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  3. Oie tudo bem? Realmente, o bullying não é algo legal, tem pessoas que chegam a cometer o suicídio por conta disso.. Eu espero que as pessoas que sofrem disso vençam, para que assim possa ajudar outras pessoas. Assim como você!

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  4. Adorei seu Post eu já sofri muito com bullying na infância

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  5. Flor acho que o bullying e a coisa mais horrível que alguém pode fazer. Quando eu vejo alguém fazendo algo do tipo eu viro um bicho de raiva e já vou tira satisfação com a pessoa que faz!! Eu espero de coração que quem sofra disso deem a volta por sima ou pense que a pessoa que está fazendo isso não é melhor que ela!! Melhor que nós mesmo somente Deus!! Adorei teu post texto muito forte.

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  6. Nossa que forte! Em alguns frases eu me vi nesse texto. Já sofrir bullyng por ser tão calada. Os "coleguinhas" de sala me chamavam de estranha por eu não conversar com ninguém. As vezes diziam que eu "me achava" mas não era nada disso, era só vergonha, timidez, sei lá .. Ninguém nunca entendia, aliás .. Ninguém entende o meu silencio!

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  7. Muito forte e tocante seu texto mesmo, história admirável e mais admirável ainda é ver a pessoa que se tornou, alguém que quer ajudar em vez de se calar.
    ''O suicida me ajuda a entender a dor que sofri - porque eu entendo a sua dor. Mas por alguma razão, a vida me proporcionou uma chance de estar viva para dizer a quem sofre de bullying: a força existe dentro de nós.'' A força está dentro de nós as vezes só falta um empurrão para desperta-la. Desejo que você toque muitas pessoas e que elas se inspire! Abraços

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