terça-feira, 22 de novembro de 2016

TODO MUNDO É METIROSO E NINGUÉM DIZ A VERDADE: SOBRE O LIVRO “AUTO DA BARCA DO INFERNO”, DE GIL VICENTE


Pessoas, trago verdades (ops!) – na “verdade”, essa é a minha primeira tentativa de resenha de livro. E vou tratar de um clássico da literatura portuguesa, que é de uma contemporaneidade sublime: “Auto da Barca do Inferno”, de Gil Vicente. É como a Tia Misa – a cara do sarcasmo – pois como este humilde espaço, se encontra na obra um conteúdo autêntico cujo objetivo é “corrigir os defeitos da sociedade por meio do riso”.

OK, OK, OK eu sei que o título do texto se refere à outra obra do Gil “Auto da Lusitânia”, mas eu usei só para chamar a atenção. Eu recomendo também essa obra.

Gil Vicente é considerado o pai do teatro português. “Auto” significa peça de teatro pequena. Começou religioso, e evoluiu para o popular em caráter de entretenimento da sociedade.

Eis o enredo:

Um Anjo e um Demônio esperam em um ancoradouro os passageiros (os mortos) que tem como destino ou o Paraíso, ou o Inferno. Esse quadro representa o dia do Juízo Final. O primeiro ilustre passageiro é um fidalgo, que se acha merecedor da barca do Paraíso, porque deixou muitas pessoas rezando por ele, mas vai parar na barca do Inferno. E ainda lança a conversa no diabo para deixá-lo ver sua mulher amada, alegando que ela está a sentir sua falta. O diabo na melhor moda #misantropiza traz a verdade de que em vida o fidalgo a enganava muito.

Depois vem o agiota. Este também tenta embarcar para o Paraíso, mas é impedido. Pede ao Diabo para voltar a Terra e pegar sua riqueza, mas é impedido pelo mesmo.

A situação muda quando chega o parvo. Esse o Diabo tenta convencer a embarcar com ele, mas quando o parvo descobre que o destino é o Inferno, recorre ao Anjo. Comovido por sua humildade, o Anjo deixa-o entrar na barca do Paraíso.

A seguir vem o sapateiro. Enganou a vida toda, e pretensiosamente achou que poderia enganar o Diabo. Recorreu ao Anjo, mas este o mandou para a Barca do Inferno, pois ele “roubou o povo”.

O frade pensou que, por ter sido uma autoridade religiosa, embarcaria rumo ao Paraíso. E o pior: chega com a amante (ué? Frade com amante? Siiiim – com a amante). Até esnoba o Diabo, que o convida a entrar. Mas o Anjo “misantrópicamente” lhe esfrega a verdade do seu falso moralismo religioso.

Brisida Vaz, a feiticeira e alcoviteira, recebe as boas vindas do Diabo e a lisonjeia por seus “seiscentos virgos postiços”. Ela também tentou passar a conversa no Anjo, mas em vão. Sua culpa? Prostituição e feitiçaria. Sim, pessoas: ela em vida lançou à prostituição meninas, e enganou homens dizendo que estas eram “virgens”. Seiscentos homens!!! Mais golpista do que ela, só a “bancada evangélica” (hahahahahahahahahahaha – se eu for condenada ao Inferno por esta piada, vou me acabar de sambar barca, até o Diabo me expulsar para a barca do Paraíso).

O personagem do judeu com seu bode chega a dar dó (chega nada – e eu sou lá de sentir dó? Não sou obrigada). Gente, o Diabo recusa o judeu por causa do bode (Como assim????? Baphomet não aprova isso! Kkkkkkkkkkkk). Tenta falar com o Anjo, mas é impedido, pois sua culpa vem do fato de não aceitar o cristianismo. No fim, o Diabo aceita o judeu. Engana-se se pensou que ele deixou o judeu entrar na barca – o judeu e o bode (bem, fiquei com dó do bode) vão rebocados.

Antes de pensar que Gil era anti-semita, vai consultar a história, pessoas: na época em que foi escrito, Dom Manuel botou para correr de Portugal muitos judeus, e os que ficaram, tiverem que se converter ao cristianismo. Gil só quis “acompanhar o bonde”.

Falando em bancada evangélica (ops!) – nada, pessoas, falando dos personagens do corregedor e do procurador, estes apresentaram suas defesas ao Diabo para não aceitarem o convite dele. Mais uma vez, muito “misantrópico” o Diabo os manda ao Anjo, que os repele sob a acusação de manipularem a justiça em benefício próprio. E lá na barca do Inferno eles encontram sua velha aliada Brisida.

O enforcado acreditou que embarcaria para o Paraíso devido à sua condenação em vida, mas foi enviado à barca do Inferno por corrupção.

“Bem aventurados” são os quatro cavaleiros (os últimos passageiros) que lutaram defendendo o cristianismo. Recebem passagem vip para a barca do Paraíso.

Vamos combinar, né pessoas: Gil trabalhava para a monarquia. A monarquia era absolutamente cristã. Portanto, lógico que os cavaleiros seria recebidos pelo Anjo. Lembrando algo muito importante: que a obra é escrita entre a passagem da Idade Média para a Idade Moderna. Então, ao mesmo tempo em que critica a sociedade (a cara da Idade Moderna), também tem uma ligação medieval, devido à figuração religiosa.

A dualidade presente na obra expressa uma visão de mundo maniqueísta.

Essa obra faz parte de uma trilogia (as que seguem são Autos da Barca da “Glória”, do “Inferno” e do “Purgatório”). Tem um Ato dividido em várias cenas, e é possível identificar os personagens por causa da linguagem no estilo coloquial.

E sem perder o costume:

Foco, força, fé e foda-se (seja no Paraíso ou no Inferno)
 
 
 
 
 

3 comentários:

  1. Uaal, você escreve muito bem sabia? Arrasou kkkk
    Sobre sua resenha: Ameeei! Estou encantada com sua sinceridade!

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  2. Nossa, que livro heim kkkkk é bom? você gostou? Eu não conhecia esse livro nem o autor.

    www.omliteratura.blogspot.com.br

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  3. Olá, interessante esse livro, valeu

    https://coisasdamilaa.blogspot.com.br/

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