segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

RESENHA DO CONTO "AMOR" - CLARICE LISPECTOR

O conto “Amor” faz parte do livro “Laços de Família”, lançado em 1960 pela Editora Francisco Alves. Recebeu o Prêmio Jabuti de Literatura em 1961. Uma curiosidade acerca do livro é que a maioria das personagens estão em uma batalha constante para equilibrar as exigências da vida familiar com o anseio por uma vida mais liberta. E justamente no referido conto encontramos isso na personagem de Ana.
 

Ana é uma dona de casa devotada ao lar e à sua família. O fato de sempre ser útil aos seus é o que a completa e lhe traz satisfação, mesmo que não haja felicidade nisso. Porém toda essa estrutura é abalada quando, ao tomar um bonde, voltando do mercado, indo para casa, sua atenção se volta para um cego mascando chicletes. Isso lhe causa uma extrema inquietude, pois isso faz com que reflita sobre a realidade de sua vida. Tamanha atenção faz com que perca o ponto onde desembarcaria, e acaba por descer próximo ao Jardim Botânico, o percorrendo para voltar ao seu lar. A inquietude provocada pelo cego deixa a sensibilidade de Ana aflorada, de forma que tudo o que há no ambiente a afeta de forma singular. Na verdade, o fato fez com que ela saísse de sua “zona de conforto”, e passasse a se questionar se realmente valia a pena permanecer em seu vazio existencial.
“Amor” é relatado por um narrador onisciente, que apesar de não participar da história, visualiza todos os fatos – na casa de Ana, no Bonde e no Jardim Botânico – e conhece os pensamentos dos personagens.
Clarice nos mostra com o conto como a seqüência dos fatos que ocorrem com Ana fazem com que passasse a ter uma perspectiva outrora reprimida desde sua juventude, pelo medo de uma outra vida que não a que construíra. Em certo momento do conto – quando Ana finalmente chega em sua casa – ela é recebida pelo filho, a quem abraça de maneira muito intensa, quase o sufocando, e pede para que ele jamais deixasse que ela se esquecesse dele, numa tentativa desesperada em conter seu desejo de mudança, para que não perdesse seu lar e sua família.
Esse choque que a personagem sofre, fazendo com que sinta o mundo ao seu redor, e se sensibilize a todos os seus aspectos, ou seja, esse rompimento com o seu mundo particular, e por fim, sua ânsia em manter-se com sua família é que fez Clarice denominar o conto de “Amor”. De maneira indireta, o título revela uma personagem que se vale da ocupação da família para suprimir o desejo de se importar com o mundo.

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Esta postagem participa do Projeto Clarice-se 2017 - Resenha do mês de Janeiro

https://www.facebook.com/groups/1160372797372676/

 

2 comentários:

  1. Fiquei muito intrigada com essa história! Posso estar enganada, mas me parece que há muito mais do que se imagina aí. É realmente muito inquietante quando olhamos para o lado e vislumbramos a realidade alheia. De forma geral somos cegos, olhamos mas não vemos. E tantas outras vezes ignoramos o quanto a nossa vida poderia ser diferente o quanto queríamos que ela fosse diferente.

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  2. Eu amei esse conto, me fez refletir em como a gente leva a vida sem olhar para o próximo, sem reparar nas coisas lindas da vida de verdade. E como o amor se da nas coisas mais simples, fala do amor puro.
    Amei demais, feliz por participar do projeto
    Bjs floor

    http://cariocadointerior.com.br/index.php/2017/01/30/projeto-clarice-se-amor/

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