segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

RESENHA DO CONTO "FELIZ ANIVERSÁRIO", DE CLARICE LISPECTOR


O conto de fevereiro “Feliz Aniversário” – o quinto conto do livro “Laços de Família”, da enigmática Clarice Lispector, trata de uma reunião familiar para comemorar o aniversário de 89 anos de Dona Anita, a idosa da família. A narrativa parte do ponto de vista dela, que observa o comportamento de todos os presentes, e apresenta a hipocrisia que existe nos laços de família, e a questão delicada dos parentes idosos das famílias: a obrigação que se sobrepõe ao afeto (sentimento de abandono pela falta de correspondência de carinho e proteção), e de como isso interfere no individualismo de todos.
 
 

O “transtorno metal” ao que Clarice nos leva já começa pelo título: “Feliz Aniversário”. Ela se vale de um sarcasmo indireto, pois as pessoas onde acontece a festa não estão confortáveis em estarem lá. A motivação maior de todos é a convenção social que a data impõe.

Dona Anita mora com a filha Zilda. Ela é quem prepara a festa, arcando inclusive com todas as despesas, e não o faz por prazer, mas sim por obrigação. Sua revolta se mostra em muitas passagens do conto. A imposição deste “dever familiar” não é apenas dela – todos estão comungando da mesma angústia da obrigação. Lembremos da “nora de Olaria”, que saúda a todos com a cara fechada. “Vim para não deixar de vir...”

O conto por alguns momentos divide-se entre o ponto de vista de Dona Anita, e dos demais personagens. O que deveria ser uma confraternização, é muito mais uma convenção: mulheres que reparam na aparência umas das outras; o irmão que quer aproveitar o momento para tratar de negócios; o filho que quer se mostrar melhor do que o falecido irmão, e as crianças – os seres mais puros do conto, por agirem de maneira natural. De um lado a exposição das atitudes negativas da família, e do outro a decepção de Dona Anita que constata – em profundo silêncio – como patética toda aquela encenação de estima e afeto. E despreza de maneira absoluta.

Dona Anita “quebra” o ambiente, já farta de tamanha hipocrisia, no momento em que cospe no chão. Mesmo com as advertências da filha Zilda, sua ação mostra o rompimento com aquela farsa arquitetada pela filha, e por todos os presentes. Soma-se a essa atitudes outras mais (Dona Anita pede vinho; repreende a neta que a chama de vovozinha), e tamanha polêmica que causa faz com que a falsidade de todos fique exposta, causando um verdadeiro desconforto.

Mais uma vez Clarice coloca uma mulher como protagonista, que sai de sua zona do conforto (ou seria desconforto?) para promover uma ruptura, uma revolução sobre uma situação já insustentável. A cusparada de Dona Anita aniquila a burocracia das atitudes hipócritas dos filhos.

A festa do conto é somente uma fachada. Uma descrição dos laços de família que se processam na base dos interesses e da convenção, tornando-os fragilizados e tristes.
 
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Esta postagem participa do Projeto Clarice-se 2017 - Resenha do mês de Fevereiro

 

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