sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

TAG – BDSM: DECIFRANDO O CÓDIGO: #1 – O Evangelho da Submissa

Existe um universo constituído de pessoas que vivem um estilo de vida visto pela sociedade como excêntrico, perigoso e muitas vezes psicótico. Mas na verdade essas pessoas o consideram assim porque acham que em sua ignorante comodidade estarão protegidos dos/as adeptos/as, e muitas inconscientemente se protegem de descobrir que, em verdade, sentem vontade de pertencer ao mesmo.
Esse universo ao qual me refiro é o BDSM.
Aos que tem apenas uma visão limitada pelo preconceito difundido pela sociedade, ou aos que tomaram conhecimento por meio da trilogia “50 Tons de Cinza”, eis uma pequena introdução geral ao BDSM.
BDSM é uma sigla – junção das palavras em inglês Bondage (“bandagem”), Discipline (disciplina), Sadism (sadismo) and Masochism (masoquismo). O objetivo deste universo é que seus/suas adeptos/as obtenham prazer por meio da troca consensual de poder entre alguém de perfil dominante e alguém de perfil submisso. Existem diversas práticas dentro do BDSM. Contudo, seu fundamento está no SSC (são, seguro e consensual).
Essa TAG que criei tem por objetivo trazer esclarecimentos concisos sobre este universo por meio de entrevistas com adeptos/as. A teoria é acessível, mas a prática e a realidade do BDSM é ainda um mistério. E a TAG se “serve” de “portal” para que quem a lê, o decifre, e quem sabe, se descubra.
 
Tenho a grande satisfação de receber Ana*, uma submissa que não se classifica como uma coisa só, mas sim como uma junção de várias (babygirl, brat, bottom, kitty),para responder a primeira parte de minha TAG.





1) Obrigada por sua disposição em responder a essa TAG. Minha primeira pergunta: como você define “Submissão”?

Eu defino como uma necessidade. Não é só um jogo, está mais para um estilo de vida. A submissão está muito presente na personalidade da pessoa que o é, mesmo fora das sessões e do mundo. É toda uma ideologia que precisa ser trabalhada diariamente na vida do/da submisso(a). É uma escolha desenvolvida mental e fisicamente e a qual, quando não aceitamos, nos oprime e nos faz sentir prisioneiros de nós mesmos. Não é praticada no dia a dia, não sempre, mas é vivido internamente a todo momento.

2) Por que a escolha de ser Submissa? Essa escolha é livre?

Eu escolhi ser submissa quando, depois de muita análise pessoal, percebi que algo faltava. Algo não se encaixava. E não era só no sexo: era na vida em geral. Eu tinha uma pedra no meu sapato que não conseguia identificar. Quando eu tentei explicar meu comportamento para alguém, quando ainda era bem jovem, e me disseram que eu seria uma "ótima submissa”. Decidi pesquisar sobre. Logo após me iniciei em algumas práticas mais leves e toda minha perspectiva de vida mudou. Eu me sentia livre das minhas próprias amarras. Principalmente sendo amarrada por outro alguém! *risos*

3) O acordo entre Dominador e Submissa estabelece separar prática de afetividade, ou é possível uma “brecha” para que esse acordo possa se tornar um relacionamento afetivo?
Penso que um relacionamento afetivo só nasce de uma relação D/s pelo “feeling”. Às vezes os dois (ou mais) acordam entre si que não haverá possibilidade de qualquer tipo de relacionamento afetivo e isso, com o tempo, acaba acontecendo fora do controle das partes. A conexão muda, aumenta, se transforma. Também em vezes que ambas as partes tentam algo por acreditar que pode dar certo, e simplesmente não dá. A química existe durante as sessões; mas fora dela as diferenças se mostram grandes demais. Acho válido que aja um diálogo muito aberto e sincero logo na etapa do conhecimento e pré acordo como as partes envolvidas se sentem sobre um relacionamento efetivo. Mas acho que ditar essa regra de proibição no contrato é querer controlar algo que não se controla. Os sentimentos são extremamente mutáveis. Contrato nenhum os detém.

4) Caso aconteça do acordo se tornar um relacionamento afetivo, é necessário que seja aberto ou monogâmico?
Ser aberto ou monogâmico também é questão de “feeling”. Questão de personalidade. Pessoas que tem uma ideia diferente sobre posse, sobre ciúmes, sobre liberdade. Eu não privaria meu/minha parceira à um relacionamento monogâmico se ele/ela não quisesse isso. Se eu tenho afeto/amor por essa pessoa quero que ela seja feliz; se possível, comigo. Mas não precisa ser só comigo. Anos atrás eu era bem ciumenta, mas hoje em dia a vida já me ensinou que as coisas são diferentes. Como dentro dessa relação a possessão é uma coisa bem forte, ao meu ver a relação toda gira em torno de como o Top/Dom tem seu/sua sub e vice-versa. Creio que isso deva ser conversado e respeitado. Esse limite é tão severo quanto os limites dentro da sessão. A forma como a pessoa pode ser machucada, se esse limite for desrespeitado não se cura no “aftercare”.

5) Esse acordo é por tempo indeterminado, determinado, ou parte de algum dos envolvidos seu fim?

Acredito que o tempo de contrato vai de acordo com a necessidade de ambas as partes. Eu gosto de algo mais duradouro, que seja trabalhado. Se eu tenho um/uma Dono(a), eu me dedico somente a ele/ela por meses, quanto tempo for necessário. Acredito em sessões constantes e também em um relacionamento saudável no dia a dia, fora das sessões. Acredito piamente no afeto dentro da relação, sem torná-la um relacionamento afetivo, e sim um cuidado, um prezar pelo que você dá e recebe. Não vejo problemas em firmar um contrato de meses, com a condição de que no contrato aja uma especificação muito clara que o mesmo poderá ser rompido se qualquer limite não for respeitado. Mesmo algo que seja novo e tenha sido descoberto naquele momento.

6) Como é a submissão? O/a submisso/a precisa servir 24 horas por dia, ou somente quando há sessões?
Isso vai de como a personalidade do(a) dom/domme influencia o/a sub. Existe Dom que gosta dessa submissão 24/24, não saem do "papel", nem mesmo por whatsapp. Tem Dom que prefere deixar isso reservado para os momentos a sós, durante as sessões, porque gosta de se afirmar olho no olho, pele na pele. Qualquer um dos dois modos é gostoso, a meu ver: gosto de ser sempre alertada que pertenço a alguém. Que pertenço por escolha e adoro isso. Acho que a forma como decidimos servir vai da nossa própria necessidade de demonstrar nossa submissão, e do tato sobre a necessidade que o Dom ter de ser lembrado de sua dominância.

7) As pessoas do seu convívio, ou familiares sabem de sua apreciação pelo BDSM?
Alguns familiares sabem. Meus pais e irmão não. Eles me veriam como uma aberração. O preconceito e a falta de informação são tristes. Parece que eu me torno outro ser humano por esse meu lado, e isso não é verdade. Eu sou uma sub, uma bottom, uma brat, babygirl e gatinha (eu sou todas essas coisas, não me encaixo em uma só), mas eu ainda sou uma profissional dedicada, uma amiga fiel, uma estudante das mais "cdf's", uma professora moderna. Ser adepta do mundo não faz de mim menos “Ana” do que eu sou. A maioria dos meus amigos sabe, e eu não faço questão de esconder se considero que o conhecimento disso possa me prejudicar de alguma forma. Sou extremamente aberta em todos os quesitos da minha vida. Sou sobre isso, também.

8) ‘’Fakes’’ servem para que os/as adeptos/as se protejam de perseguições pelas redes sociais?
Acredito que os "fakes" são medidas de segurança, sim. Família, amigos, trabalho, em qualquer lugar as pessoas podem não atender, e fazer um julgamento errado. O preconceito pode prejudicar de forma irremediável a vida desse/a adepto(a). Não acredito que sejam pessoas de má intenção: as de má intenção demonstram isso por trás de fotos de si mesmo ou não. A noção de segurança de cada um deve ser respeitada.

9) Como você vê a cena BDSM no Brasil? Ainda falta muito para que a sociedade perca seu preconceito?
Ah, falta bastante, sim. Já ouvi comentários péssimos.

v  "Você gosta de apanhar? Então eu posso te dar um tapa agora que você vai ficar com tesão?"
v  "Você gosta de ser humilhada? Como pode dizer que é feminista?"
v  "Você não pode reclamar de tal pessoa ter te machucado, você gosta disso, deixa de ser hipócrita"
v  "Você deve ser uma vagabunda na cama. Qualquer dia te pego na raiva e te fodo, te esmurrando pra desestressar"
v  "Espero que algum dia te espanquem quase até a morte pra parar com essas frescuras"
v  "Eu não quero você como professora do meu filho se você gosta de agressão, vai o ensinar a agredir os outros?".

Vai daí pra bem pior. As pessoas não conseguem separar as coisas. Consideram-me uma maníaca por sexo, agressiva, maluca. Acho que todo mundo já passou por isso pelo menos uma vez. Qualquer tabu tem essas reações, mas o BDSM tem essa reação extremamente negativa. Não consigo imaginar como essa situação possa mudar, mas tenho fé nessa utopia.

10) Você vive o BDSM atualmente ou está afastada? Caso esteja afastada, ao que se deveu o afastamento?
Eu não tenho um Dono ou Dona no momento. O trabalho, o último ano na faculdade e meus projetos sociais em pleno funcionamento tem podado qualquer tempo que eu tenha para me dedicar. Tenho esse desejo, sim, de voltar à ativa. Mas estou me descobrindo mais no mundo, e não consigo me encaixar mais em uma coisa só, e algumas pessoas não sabem lidar comigo, com meu gênio difícil e minhas provocações por castigos, etc. Minha falta de tempo é ultrajante, na maioria das vezes. Tenho muita dedicação para oferecer, mas meu ritmo de vida tem me prejudicado bastante. No momento estou mais inserida que nunca no mundo, só que nos estudos. Venho estudando muito ultimamente. Conversando com muitas pessoas, sobre as mais diversas práticas. A curiosidade por práticas que nunca tentei vem sendo aguçada, a vontade de me aprofundar mais nas práticas que já conheço vem crescendo. Mas eu entendo as necessidades de Um/Uma Dominante. A busca ainda existe, mas está adormecida no momento.

Estou esperando que logo seja acordada.
OBSERVAÇÃO
No texto, o uso de “Dom” procura englobar toda a parte dominante da relação: Dom/Domme, Top, Tamer, Daddy/Mommy e etc. Assim como “sub” procura englobar toda a parte submissa da relação: submisso(a)/escravo (a)/bottom/brat/babygirl/little e etc. O questionário é sobre uma relação D/s e se encaixam os diversos gêneros dentro da mesma. Não é porque a palavra não está aqui inclusa que ela deixa de existir no sentido do texto.
 
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Se estavam esperando um glossário de termos, esqueçam!

Ousem descobrir.
Foco, força, fé e fodam-se (de preferência “com força”)

10 comentários:

  1. Oi,
    Com certeza uma boa entrevista sobre o assunto.
    Abrçs

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  2. Olá, Elaine.
    Juro que não fazia ideia do conteúdo do post. Adorei a organização e a sua coragem para montar um post tão polêmico.
    Adorei conhecer mais sobre a "Ana", o mundo dela e o jeito que engloba toda essa questão de submissão, com certeza deu muitas dicas boas!

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  3. Adorei a entrevista! É bem interessante saber mais sobre o assunto e também uma boa maneira de quebrar tabus.

    Beijos!

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  4. Que interessante a tag, gostei de como abordou o tema e entrevistar uma submissa assumida é muito esclarecedor. Parabéns pelo post!

    MEMÓRIAS DE UMA LEITORA

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  5. Oi Elaine.

    Interessante a tag em forma de entrevista, porque nem sempre uma pessoa está disposta a esclarecer e conversar abertamente sobre o assunto.Parabéns pela postagem.

    Bjos

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  6. Interessante o assunto.
    Parabéns pela abordagem!

    Att

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  7. Olá!
    Amei, amei saber como é o mundo do BDSM e principalmente qual o papel de uma SUB. Confesso que descobri esse mundo depois de ler 50 Tons de Cinzas, após isso fiquei interessada em tudo que faz parte desse mundo e respeito a todos que tem esses estilo de vida. Espero que um dia as pessoas parem com esse preconceito.
    Parabéns pelo post.
    Beijinhos!

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  8. Adorei a postagem e sua entrevista com alguém desse meio. Acharia incrível poder conhecer alguém para conversar pois eu tenho muita curiosidade e muitas dúvidas de algumas coisas como funcionam na prática, sabe?
    Diferente da maioria, não curti 50 tons - um tanto pelo estilo da narrativa e outro tanto por misturar algumas coisas de controle absoluto sem uma conversa aberta e com aceitação de ambas as partes, entre outros detalhes...
    Pena o preconceito ser tão grande em torno de tudo o que não é muito conhecido... Pelos comentários que a "Ana" já ouviu dá para perceber como o povo tem mania de julgar sem nem conhecer do que está falando...
    Parabéns pela postagem...
    Beijinhos,
    Lica

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  9. Um tema bem polémico ... Acredita que mexeu com a minha maneira de ver esta temática? Adorei mesmo, da para reflectir muito!

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