terça-feira, 28 de março de 2017

RESENHA DO CONTO "FELICIDADE CLANDESTINA", DE CLARICE LISPECTOR


O conto “Felicidade Clandestina” foi lançado em 1971, reunindo textos de Clarice Lispector escritos em várias fases da vida da autora, que foram publicados no “Jornal do Brasil”, entre os anos de 1967 a 1972. Aborda várias temáticas, desde lembranças de infância, família, sentimentos e abstrações diversas – afinal, é similar a uma avaliação psicológica a cada conto.
 
 

A escritora narra pela perspectiva das impressões mentais dos personagens, de forma que não há uma ordem, mas sim “pensamentos soltos” que vão se encaixando no conto. Essa “cadeia de pensamentos” nos leva ao que seria um tipo de “apogeu”, quando a personagem desperta, e percebe algo extremamente significante para ela com o acontecimento em si. E isso transforma de forma absoluta sua perspectiva de mundo.

No conto “Felicidade Clandestina”, a narrativa em primeira pessoa trata de uma mulher relatando um fato de sua infância. E como é possível perceber que é uma mulher, e não uma criança? Porque o estilo remete a alguém contando uma experiência vivida. Ela conta de uma menina com atributos físicos muito diferentes das demais, mas uma característica se destaca, e não é física: o pai dela é dono de uma livraria. Elas sempre esperavam no aniversário ganhar livros, mas a menina sempre presenteava com outras coisas. Ela tinha um sadismo que lhe conferia um certo ar de crueldade – talvez como forma de se defender da frustração de não estar nos padrões das meninas do seu convívio.

Quando a menina descobre que na livraria do pai dessa colega tem um livro que ela deseja muito – “As Reinações de Narizinho – Monteiro Lobato” – logo a colega se aproveita disso para submeter a menina ao julgo do seu sadismo: ela lhe faz a promessa de que emprestaria o livro, porém quando a menina chega em sua casa para buscar, sempre inventa uma desculpa, fazendo com que a menina retorne diariamente em busca do tão sonhado livro.

Percebe-se na menina certa “baixa estima”. Ela alimenta constantemente a esperança de que a colega vai emprestar o livro, mas no fundo sabe que isso lhe custará um grande esforço, como se julgasse não ser merecedora – a não ser que conquiste por meio do sofrimento.

Sua sorte infeliz muda quando, em mais um ida à casa da colega, a mãe dela surge no mesmo instante. Percebendo a presença diária da menina, resolve investigar a situação, e fica chocada quando toma conhecimento da situação, e muito mais com a maldade da filha. Como forma de correção e justiça, entrega o livro à menina, e diz que ela pode dispor do livro o tempo que precisasse.

A felicidade da menina é tão grande, que ela o leva bem apertado no peito. Sem de imediato ler, absorve a presença do livro, e o lê bem devagar. Gosta de desacreditar que o tão almejado livro finalmente está em sua posse, só para se surpreender. Como se a qualquer momento ele não mais existisse, aproveita todas as formas de gozo dessa felicidade, como se não a merecesse, como se fosse “clandestina”.

Isso se comprova com o desfecho dado ao conto: “Era uma menina com seu amante”. Geralmente uma amante é uma pessoa que mantem relação com alguém comprometido. É uma pessoa clandestina na relação, tendo em vista que goza do afeto da/do outra/o às escondidas.

Aplicando essa descrição à menina, ela tinha em mãos um livro emprestado. Estava com ela pelo tempo que quisesse, mas o livro não era seu. Ela age como se o livro fosse seu, ela “faz de conta”, por isso o termo “felicidade clandestina”, ou seja, goza de uma felicidade de algo que não possui, mas que irá aproveitar todo o instante que puder para vivê-la.

O conto enfatiza os sentimentos da personagem em face da inexistência de nomes de personagens, poucos lugares e poucos personagens. Isso permite ao leitor mergulhar na mente da mesma, se permitindo comover, vislumbrar e até se emocionar. Isso é muito “clarice”: deixar os sentimentos serem os principais protagonistas de seus contos.
 
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Esta postagem faz parte do Projeto Clarice-se de março
 
 
 
 
 
 
 

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